MARIANA CORTEZE

MARIANA CORTEZE

  • Mariana Corteze

Nascida em Sidrolândia, Mato Grosso do Sul em 1992. Passou sua infância e adolescência no interior do estado do Rio Grande do Sul e a partir daí passou por várias cidades. Hoje mora em Porto Alegre, Rs. É artista visual, designer gráfica, pesquisadora e/com/sobre arte, diretora de arte e portadora de tantos não saberes. É formada em Estudos Artísticos pela Universidade de Coimbra (Portugal), em Artes Visuais pela Universidade Federal de Pelotas onde também é mestre em Processos de Criação e Poéticas do Cotidiano. Trabalha e experimenta variadas linguagens e formatos como gravura, colagem, pintura, desenho, ilustração digital, handlettering e animação, acreditando na potência da prática artística e da arte de sair dela mesma, construindo alternativas de resistir e residir.

Qual o contexto em que estás vivendo a pandemia?

Estou em isolamento desde começo de março, fazendo homeoffice. Não moro sozinho, divido poucos metros quadrados com uma pessoa. Não tenho família em Porto Alegre e não os vejo desde janeiro desse ano. Como tenho um trabalho formal que não abraça a produção de arte eu não consegui construir um espaço exclusivo para deixar meus processos artísticos respirando sozinhos. Com a quarentena tive que usar minha mesa (que era meu atelier até então) para o trabalho formal. Foi assim que minhas produções começaram a tomar conta do restante da casa, das paredes, do chão, do teto, da cozinha. Eu tenho o hábito de demorar me acostumar com algo que produzo, então, preciso deixar exposto para que aos pouquinhos vá me relacionando, apreendendo o trabalho,  das suas cores, formas e composição. Então, há muuito tempo atrás comecei a construir murais de processos. Sobreponho ideias, rascunhos, anotações e esboços nas paredes das casas por onde passei. Acho engraçado como a umidade dá vida a essa camada de papel, ondulando, deslocando alguns.

CARTA 113

"Carta 113 do Baralho de Reflexões de isolamento social de um jovem adulto

 

ilustração digital (2020)"

MARIANA CORTEZE // CARTA 113 - Baralho de reflexões de isolamento social de um jovem adulto

A quarentena afetou a sua produção? Como era a sua rotina criativa antes do isolamento e como está agora?

sim! acho que não tem como não afetar né? tudo na produção artística está ligado ao movimento do nosso corpo, da nossa saúde física, mental. Antes da quarentena minha rotina criativa se resumia a conseguir praticar alguma coisa durante um dia no final de semana. Durante a semana eu estava muito envolvida na dinâmica do trabalho formal, da marmita diária (haha) só conseguindo, no máximo, fazer anotações de ideias para um dia fazer. Com a quarentena meu tempo mesmo que teoricamente maior (pois não precisava me deslocar, tinha o horário de almoço perto dos meus materiais), ficou menor. Por muito tempo tive a sensação de não sair do trabalho, sobrando pouca energia criativa para desenvolver outros projetos. A ansiedade tomou conta do meu corpo me deixando imóvel. Eu, que já tinha tendinite me vi com o corpo travado e o psicológico atrapalhado. Parei. Respirei muito. Continuei respirando. Comecei lentamente a construir territórios de afeto, de identificação em relação ao espaço que estava vivendo.

BRISANDO SOZINHA

"Série Mulheres Cansadas: Brisando sozinha - colagem digital (2020)."

MARIANA CORTEZE // BRISANDO SOZINHA

Acredita que a pandemia interferiu no seu trabalho artístico de maneira definitiva ou imagina que com o retorno das atividades a sua produção, também, fará um caminho de volta para um curso habitual (pré-pandêmico)?

Acredito que nada é definitivo. assim como antes da pandemia tive momentos em que consegui me dedicar mais a produção artística e outros em que estava me sentido uma completa estranha a ela, assim também está durante a pandemia e estará depois. O movimento de se perceber, se reconhecer, afetar e afetar-se é o que constrói minha poética. É expansão do corpo. É emanar vida, encontro. É uma potência do agir que redesenha o espaço, que habita lugares, que procura em qualquer linguagem pequenas resistências, pequenas formas de ser e estar no mundo. A realidade é substância criativa, é potência de denuncia, de criação de território.

MARIANA CORTEZE // sem título

SEM TÍTULO

"Série de pintura que tenho desenvolvido ultimamente mas ainda não encontrei um nome para chama-las. Essa é a pintura número 4 - tinta acrílica sobre papel pardo (2020)."